Falas Curtas
“Homero sim é um poeta. Eu diria que eu faço coisas.” - Anne Carson
Fala curta sobre o fogo
“Frente ao fogo somos todos ouvintes”.1
A Matilde Campilho por onde estará? Me perguntei quando li numa floresta desconhecida a poesia dedicada a ela e ao cuco (palavra que tomei emprestada de um de seus poemas-fluxo). Talvez esteja diante do crepitar de alguma fogueira. Pode até mesmo ser uma carne esquecida sobre a brasa numa dessas muitas ruas que comemoram a Copa. Estará dialogando. Pois todo e qualquer ruído de madeira, como a portuguesa nos contou, é um dialeto específico. Terá gritado gol?
Fala curta sobre Jaculum 2
Uma fala curta é como uma jaculatória. oração simples e direta direcionada a um Santo, à Virgem, ao zagueiro, ou a um goleiro como Vozinha.
A oração não faz a curva; a bola, sim. Antes da falta a prece é lançada rápida e diretamente para os céus. Se a bola fizesse isso o tempo todo, seria como a final de 94. Todo ano o Brasil seria é tetra, é tetra, é tetra, é tetra.
Os pedidos continuam eficientes, sem rodeios.
O ouvinte é que talvez não goste de futebol tanto assim.
Fala curta sobre a beleza em maio
Porque morava no Rio de Janeiro e não em São Luís, José Ribamar Ferreira escreveu: Olha, você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro em maio.
Fala curta sobre o Sonny Rollins
Alguém circulou com uma caneta bic vermelha o sax tennor do Sonny Rolins naquela foto da escadaria no Harlem.
Sonny foi o mais resistente de todos porque tocava ininterruptamente por umas quinze horas debaixo da ponte apenas para não atrapalhar a vizinha grávida. Isso lhe conferiu pulmões de aço e um coração mais forte que sabia, diante de qualquer infortúnio, improvisar.
Apenas Rollins carregava um sax no grupo.
Tocou a música final ao seu modo.
Fala curta sobre meu poeta favorito
Imprimi a foto de Oscar Restrepo e colei num quadro de cortiça no meu quarto. Logo abaixo montei um pequeno altar para o Cem anos de Solidão, do Gabriel García Marquez; assim como escrevo isso vestindo um casaco da Zara que comprei porque imitava o xadrez do colombiano.
Olhei para lá e me perguntei Por que eu gostaria de ser poeta. Paga bem?
Acendi uma vela perto daquela foto e iluminei a boca sempre craquelada e seca de Oscar. Abri a minha bolsa e tirei de lá um batom de cacau. Espalhei um pouco sobre a foto, que absorveu o óleo. Me senti pronta para perguntar-lhe, quase como que numa súplica, por que já não sou uma poeta se coleciono fracassos como você e tenho-os todos anotados?
Fala curta sobre o homem-poesia
Num livro a Ana Martins Marques diz que numa entrevista a Anne Carson diz que se a prosa é uma casa, a poesia é um homem em chamas correndo rapidamente através dela.
Não é a casa de um bairro qualquer. Ela fica num lugar em que se vai pela primeira vez, ao final de uma rua que não tem saída. Defronte para ela há uma outra casa com um lago no quintal. Mas aí então é que por volta das cinco e meia da tarde o sol ilumina especificamente essa casa e porque você se voltou para o lugar todo em vez de entrar no lago, vê primeiro o chão de pedras de cantaria, depois toma um pouco de distância e finalmente enxerga a casa amarela: uma prosa dura, polida, com janelas abertas ao redor.
De repente, uns versos, cabelos pretos, acesos e chamejantes, atravessam o interior dela. é um homem. é a poesia. Ele corre para abrir as portas do fundo. Restará a você aceitar o convite e entrar.
Fala curta sobre cânon (do grego, significa "régua" ou "padrão de medida".)
Sou ajudante do padre. Ele escreveu: lembra-te homem que és pó levantado e hás de ser pó caído.
Sem que percebesse, já na quinta cópia do papiro, verti para: Se lembra que tu é pó e vai voltar para lá. Ah, se vai.
Para mim nunca foi apenas um trabalho, era um modo de vida e uma forma de me fazer escritora também. Intuí aqueles anos todos isolada numa salinha aos fundo da igreja que esse homem de comparações dantescas não morreria nunca. E tudo quanto ele me ditou de um jeito, já na décima ou vigésima cópia, eu fiz do meu modo.
O Sermão nunca foi primeiro aos peixes. O Padre era inculcado com os uns bichos que comiam ovelhas; com as muitas falsas ideias de uma criatura que deixava dois buracos pequenos, na altura do pescoço, no corpo do novilho.
Fui eu que nos intervalos, ali mesmo encostada na ponte, via chegarem as catamarãs lotadas de todos os tipos de peixes, uns inclusive com outros menores extrapolando a boca.
Na quarta cópia fiz meu nome.
Fala curta sobre Gioia (do francês antigo joie, que deriva do termo latim gaudia, plural de gaudium que significa “alegria”.)
A Clarice Lispector disse que estava lendo em italiano porque é o jeito. A palavra mais bonita da língua é gioia.
Acho, e até escreveria isso para ela, que as palavras mais bonitas em italiano são essa sequência do Pasolini: Forse perché quel sole entrava dentro le cose, e da dentro esse traeva il suo fosco, secco splendore.
Encontrei essa frase assim, sem ao menos saber italiano, porque foi o jeito. Está rodeada dum texto inteiro sobre algo que nem sei. Um crime excluir todas as outras palavras? Afinal, é Pasolini. Mas foi ele quem escreveu que o sol ilumina não o dicionário inteiro, ou o salão imenso, as várias bibliotecas do mundo. As partículas de luz entram em le cose e ignoram o redor.
dentro le cose
secco splendore
repito, inventando uma jeito de enunciá-las.
Fala curta sobre o paraguas mojado de Maga
“Não há guarda-chuva
contra o mundo”
João Cabral de Melo Neto
O jornal anunciava un paraguas mojado que procurava a Maga.
Estava triste, mojado, não se sabia da chuva ou de tanto llorar. Enquanto o inspetor tomava nota dos detalhes, falava pelos cotovelos. Dizia que achava paraguas uma palavra linda e que mojado lembrava molhado, porque era assim que se falava no pueblo de onde vinha. Que saudades, dizia, ajeitando o bigode liso no mesmo formato do bigode chinês que escondia por debaixo de todo aquele pelo (pois havia sofrido nos últimos meses por causa do amor e tinha perdido bastante peso. quase que se percebia o formato do osso do rosto rente à pele).
E continuou.« Mas barrio também é interessante. Sabia que no Nordeste, o pueblo onde nasci, se fala português, mas tem sempre um ou outro que diz barrio também? Meu filho, as línguas não procuram-se, mas acabam se encontrando. Convencem-se de que estão isoladas num lugar, mas quando se vê, olha lá…láaaaaaaa estão elas andando de um lado a outro, inclinadas sobre nós, como você com esses olhos esbugalhados. Nós as vemos em outros rostos, em outras palavras parecidas, agachadas junto a los gatos. Sorrimos sem surpresa. Porque elas se sacrificam todo santo dia para virarem uma outra sempre.»
terminou de dizer, fechou a caderneta, abriu o paraguas e chorou.
Havia se apaixonado exatamente por uma dessas palavras que, certa da sua liberdade, atravessou a fronteira e agora vive entre frases, muito mais distinta do que era.
E nunca mais trocaram uma palavra sequer3
Fala Curta sobre a duvidosa imortalidade do Milton Hatoum
Ao dizer que sua imortalidade era duvidosa, o ocupante da cadeira número 6 da Academia Brasileira de Letras não se referia a suas obras permanecerem para além das épocas. Falava, na verdade, era de estar tão longe do Amazonas e, portanto, lejos do seu peixe favorito, o tambaqui.
Com os dentes duros e comedores das castanhas que caem no Rio Negro, o peixe torna imortal, carne dura, pensamento teso, aqueles que o consomem. Sabedor desse segredo, no dia da posse, falava lento para imitar o rio, como que se pudesse assim receber a comida do peixe caída dos céus. Quem sabe pularia para o espelho d’agua, boca pra fora, um Tambaqui? Pudesse, ao menos nessa imaginação, comê-lo e aguentar algumas horas mais.
Não sabia o escritor, no entanto, que há uma outra forma de ser imortal.
É s e r a r r a s t a d o .
Arrastar as palavras, as frases, o entendimento, as horas.
Demorar
a
descer
o
curso
do
rio
um
centímetro
que
seja.
Assim demoram em todos nós os grandes romancistas.
Fala curta sobre a calça curta da Anne Carson
Na palestra em Louisiana, um grande cartaz anunciava: Lousiana Literature.
O título mesmo você lia no cabeçalho do vídeo no You Tube: Life is not fair.
A Anne Carson estava mais uma vez com um pedaço da canela descoberta. Explicou-me certa vez que achavam que era uma performance, e que isso fazia parte do modo divertido como se vestia, mas na verdade buscava pelos herdeiros de Homero.
Foi numa tradução que matou a charada: o poeta gostava de pele. Havia sido numa pele, puxada até o extremo, que escrevera os seus poemas. Pele humana. E isso foi transmitido para os seus alunos, homéricos poetas. O único modo de saber se na plateia havia um poeta homérico era cobrindo tudo que pudesse servir à escrita. Deixar de fora a pele mais lisa. Se houvesse alguém que fixasse os olhos ali, ela puxaria de canto ao final da palestra. Falariam em grego e o poeta responderia em grego antigo também.
E isso já aconteceu?
não ainda.
Há muito mais pessoas interessadas em letras clássicas.
Elas ficam absortas no que falo, fixadas
e é verdade. Anne Carson disse que Homero é o maior poeta; que peregrinos são pessoas que descobrem as coisas ao longo do caminho; e que um dia alguém reparou que havia estrelas mas palavras não; o rio abria e fechava seus lábios de pedra; maiores são o vento, o mal, um bom cavalo de batalha, as preposições, o amor inesgotável, a maneira como as pessoas escolhem o rei; toda noite por volta dessa hora ele se agasalha com a tristeza e continua a escrever; alguém que passe a vida desenhando pessoas de perfil acaba achando que os humanos têm um olho só.4
Sei de tudo isso porque estava apaixonada pelas incursões que ela fazia pelas ideias de eros, desejo, e grego antigo. Só olhei para as calças porque ela mesma enviou uma mensagem de texto um pouco antes da apresentadora iniciar. Perguntava se dava para ver um pedaço da canela. Precisava que a canela aparecesse e não contava com o frio na sala, subiu as meias um pouco para não tremer. Mas aguentaria alguns minutos.
Me aproximei do vídeo, aumentei a tela, e li num pedacinho de pele, acima da linha do tênis, a frase: Homero sim é um poeta. Eu diria que eu faço coisas.
Elena
Matilde Campilho, prólogo de Flecha histórias, editora 34;
do latim a palavra jaculum refere-se sempre a alguma coisa que se atira (Flecha, histórias/Matilde Campilho, editora 34)
nada nesse livro é autobiográfico. Porém, o inspetor Júlio Oliveira é o único que realmente existiu. Ao escrever-lhe enviando-lhe o texto acima, pediu que eu desse um fim trágico à história porque finais felizes não vendem e a literatura está cheia de pessoas felizes. Achei que ter uma palavra fujona como protagonista já seria boa coisa, mas ele me convenceu a pensar num final grego. O inspetor publicou recentemente, na Argentina, um dicionário etimológico de todas as palavras que a amada fez surgir em cada país por onde passou. Assim aprendeu a saber dos seus rastros. Ela também facilita-lhe a vida. Aparecem mensalmente no e-mail, ou por debaixo da porta, uma nova entrada acrescida de um afixo, sempre a partir daquela raiz, a original, que ambos conhecem tão bem. De modo que estão sempre se encontrando até hoje.
Falas Curtas, Anne Carson/ Tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman, editora 34











Vou voltar outras vezes nesse texto, Elena do meu coração 💜.
Do poema do Gullar: "e quase tão bonita quanto a Revolução Cubana". Não aceito menos haha.
lindo!