La Chimera
Escrever é acampar dentro do próprio cérebro - Elena Ferrante
1 Quando Elena ainda não sabia, doze touros caminhavam pela rua.
Era meio-dia.
Marchavam pesados, mexiam nos sacos de lixo, bisbilhotavam, viam-se nos espelhos dos carros. Houve gritos, bater de pernas e de portões. Todas as crianças choraram ao mesmo tempo e os poodles se calaram pela primeira vez na história.
Elena foi para a sacada, agarrou-se aos ferros e gritou: não é San Fermín, não é San Fermín. Mas ninguém a ouviu, ninguém se ouvia.
O maior deles, no entanto, tomando a frente da manada, ergueu a cabeça. Virou-se para cima. Agora Elena sussurrava, abrindo a boca devagar. Esticou a frase o quanto pôde e ainda assim não arrancou lágrimas do animal.
Ambos compreendiam - ele no corredor, ela no mezanino - que a grandeza da ocasião era a absoluta paz que sentiam, finalmente. O touro tinha agora a própria quimera: uma arena simples de gente comum, abismados pela excentricidade da situação.
Em vez de banderilleros, as casas coloridas acompanhavam a passagem do tropel. Não se acanharam diante dos movimentos bruscos porque também não havia picadores. Nenhuma força foi testada: o dorso maciço e as patas no asfalto anunciavam a pujança.
Para Elena era um espetáculo: de onde vinham, para onde iriam e por que escolheram aquela rua não importava.
À medida que dobravam a esquina ela soube: era o refúgio que tanto suplicou, um mundo fantástico na porta de casa.1
“Aquele que nunca saiu para caçar, mas uma noite contou aos homens como arrebatou o megatério da escuridão púrpura de sua caverna ou como matou um mamute em combate corpo a corpo, foi o verdadeiro criador das relações sociais.”
Oscar Wilde
2 Eu ajudava uma amiga a cobrar alguns clientes de Tupperware e Avon e, numa casa de porta entreaberta, vi uma carabina pendurada na parede. Quando um senhorzinho saiu da casa, antes do bom-dia eu perguntei se ele já havia visto gato-maracajá pela região.
- não, mas onça sim
- o senhor tinha mais medo de onça ou de visagem na mata?
- cobra caninana… a visagem a gente pede licença pra passar… cobra não
- caninana? A que derruba um boi…? (Eu tinha visto uma numa estradinha prum povoado naquela mesma semana, inclusive, e o que me assustou na resposta dele é que ela me pareceu muito inofensiva.)
- sim… a caninana derriba um boi desse tamanho (ele abriu os braços para fazer o formato do boi gordo) e gente ela persegue até tu resfolegar. No dia que uma apareceu na vereda, longe como daqui acolá, eu voltei devagar pra ela não me ver, mas a bicha já sabia que eu tava ali. Ela é sabida. Não me perseguiu. Deixou eu pegar distância e me caçou. Como eu já tava com o mutá preparado, fiquei lá de cima no pedaço de pau reparando, e ela não saía de lá. Eu tava com essa carabina aí, mas não tinha como gastar bala, porque a cobra era grande assim e dessa finura. Ela também se entranhava no capim, que de lá, de vez em quando, eu via que ela ficava de butuca.
Foram sete dias nisso, moça. Só desci quando deram minha falta. E a gente jogava óleo no caminho, que era pra ela não saber onde ficava a casa. Senão ela vem emboscar… Derriba… e come… aos poucos.
Contou isso sem deixar a voz tremer. Mesmo assim, eu virei pra minha amiga buscando cumplicidade, porque era uma história bizarra demais, mesmo para um caçador. Ao que ela me olha e responde:
- eu também já fui perseguida por uma caninana, com o Wellinson ainda menino.
Pausou, e o moço se esticou pra ouvir a história.
Os dois agora eram cúmplices.
Continuou:
- a gente tava na beira do açude, e ela foi beber água no final da tarde. Quando viu nós, nós correu, e eu com esse menino que não tinha nem dois anos. O Adoniran ainda bateu nela, mas foi só pra gente assubir rápido na moto.
Dei um sorriso amarelo, morta de vergonha da minha insistência com gatos do mato e onças, e aprendi uma grande lição. A mesma que Silvina Ocampo ensina quando diz que “lo raro siempre es más cierto”.
Naquele dia, fui a última a entrar para o clube. A princípio, cética, mas nem de todo um caso perdido; afinal, a minha pergunta na chegada era mais porque, no fundo, eu sabia que mais importante do que ter visto mesmo a caninana era o que acabávamos de fazer: criamos um mundo novo e muito real e nem acendemos uma fogueira.
O Gay Talese, que tinha interesse nas histórias de gente comum, e o Ferreira Gullar, que queria, num poema, reaver a manhã que virou lixo, entram num bar torto que flutuava no gigante rio Pindaré, no Maranhão.
Ao contrário do chanceler alemão - um sujeito que tinha as piores referências de que se tem notícia, pois gostava de lugares plásticos e propilênicos, e comia um pão sem nenhuma história (talvez nem o diabo houvesse dado um amassadinho, afinal até ele prefere uma vida com alguma graça) -, Gay e Gullar se divertiam com as coincidências fonéticas dos seus nomes e apreciavam as águas chocolate do rio, os restos de pescados na margem e as escamas presas nos sapatos.
As cabeças de peixes no chão, com as guelras apodrecidas, eram o ofício do poeta, que se ocupava da beleza da passagem do tempo; Gay observava o homem que catava essas cabeças e as punha num saco de supermercado amassado. Ele veio de longe, empurrando uma bicicleta enferrujada e soldada em várias partes. O tempo havia passado para ele também.
O peixe, o jornalista, um homem comum e um poeta.
Sorte a nossa não ser o chanceler alemão. Que vida cretina.
3 Na sala de espera do décimo quarto andar de um prédio comercial, me estico na cadeira em direção a um janelão para calcular a altura do tombo. «Seria um trabalho para um anjo só resgatar em pleno voo alguém que, cansado das dores, desse cabo da vida», é o que penso.
Carrego comigo, nessas esperas, um caderninho em que organizo agora alguns tipos de anjos que têm aparecido recorrentemente nas minhas leituras depois do discurso do Nobel do László Krasznahorkai. «Anjos nos interessam», escrevo numa nova página. Acrescento nossos nomes e só depois lembro da minha vó — uma boleira brilhante na Ilha, que decorava a massa americana com figuras de anjinhos sapecas.
«anjos sapecas»
«anjos podem ser sapecas?»
No discurso2, László admite que não está na sala naquela hora. Achei insurgente. Mas é algo do escritor nunca estar verdadeiramente num lugar. Eu, por exemplo, gosto sempre de me transportar para longe de onde efetivamente estou e, agora, em que penso em anjos, continuaria por horas sentada nessa sala sem estar realmente aqui. O que ocorreria - e isso é um fato - é que logo alguém perceberia que um corpo entregue a devaneios olha através de um vidro, posicionado por algumas horinhas, sem se mover; e, se eu estivesse próxima de uma ideia fascinante, o pensamento me cairia quatorze andares. Como é meu, não haveria anjo que pudesse salvá-lo, a não ser que eu pulasse em seguida, acreditando em anjos que trabalhassem o tempo inteiro.
A interrupção é o que motiva o escritor a sentir afeto pelos quartinhos em que podem se tele transportar para não serem amolados.
No discurso, o László, que não estava na sala do Nobel, anda de um lado para o outro num quarto construído numa torre, “mas que não é de marfim e sim de madeira barata norueguesa”.
«eu também teria adicionado essa informação ao texto»
A sala em que espero, por exemplo, tem um sofá verde-musgo confortabilíssimo. O formato em “U” lembra as asas de anjos quando abraçam as escritoras que salvam. Imagino que, numa queda, não o agarremos pela costa pendurando-nos no pescoço, mas que ele desate as enormes asas e nos conforte.
Como é a primeira vez que sinto uma almofada quente e aconchegante numa cadeira de um prédio comercial, julgo que seja por isso que o László comentou do material de que é feito o quarto de escrita, porque é necessária certa comodidade para estar e não estar ali o tempo todo. As madeiras baratas da Noruega sustentam os pés dançantes do escritor que gira no quarto pensando em anjos.
Não foram a altura nem a paisagem os motivadores do pensamento, mas o acolhimento e o descanso.
Virginia Woolf estava em pé nos jardins da universidade em Oxbridge (na verdade, ela também não estava), diante de um lago, prestes a pescar um peixe — que aqui é um pensamento. Ela diz que esse peixe-pensamento tinha “um mistério próprio de sua espécie (…) tornou-se imediatamente empolgante e digno de atenção”. Mas, como não está num quarto, nem em um lugar seguro, é interceptada por um bedel, cujo rosto revelava horror e indignação: este é um gramado, ele grita.
O peixe escapuliu, e um gramado permaneceu intacto e seguro por uns trezentos anos.
Nesse ensaio, a Virginia descreve a visão bonita que tinha em absoluta tranquilidade até perder-se em cogitações. Ainda que não estivesse num quarto construído numa torre ou num sofá aconchegante, ela estava agasalhada pelo silêncio, em estado contemplativo. Acho que, iluminada por situações assim, é que diz a mais conhecida de suas ideias: a de que “uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção”. Ela falava de um espaço confortável dentro da própria mente, mas também de uma salinha com chão de taco, vista para um lago, gramados livres e uma cadeira quente.
Agora já são quase quarenta minutos de espera; o sol aqueceu mais ainda a cadeira próxima do janelão. Me movo para debaixo do aparelho de ar-condicionado e leio, no encosto do sofá à frente, a descrição do móvel. Anoto o tipo de madeira para o caso de precisar de um descanso em casa. «um sofá todo meu», escrevo logo abaixo da lista de anjos e de um desenho que fiz do bolo de dez andares da minha vó.
Por cima do meu ombro, um atendente chama alguns nomes; o meu é pronunciado por último. A voz do homem poderia ser também a de um anjo, menos por dar fim à minha espera e mais por evocar o anjo do lar que a Virginia menciona em outro texto. Diferente dos anjinhos sapecas do bolo, contra esse tipo precisamos travar um embate. Aparecem assim, por cima do ombro, sussurrando em nossos ouvidos como uma consciência que bloqueia nosso trabalho e tenta suprimir nossa escrita.
«é preciso matar o anjo das salinhas de espera»
No ápice dessa entrega, tenho o tempo de apenas um paciente à minha frente para criar um embate entre dois anjos: um que soprou por cima dos ombros «que a ideia não era boa», e outro que, a qualquer custo, salvaria, com suas longas asas quentes e acolchoadas, uma escritora que ousou jogar-se para salvar um pensamento que escapuliu.
Como pensar anjos musculosos? De onde emergem as asas? Talvez eu devesse me preocupar com o barulho, isso sim. Ainda que anjos sejam sutis como gatos atravessando muros, não é a mesma coisa quando uma batalha acontece no telhado.
Pensar um anjo é pensar no terceiro anjo que encerra uma grandiosíssima imagem. Quem nos fornece ela é Drummond, poeta para quem apareciam pedras e a Máquina do Mundo, e que fez de caminhadas um lugar seguro.
Ele também viu anjos em lutas.
E já começa pelo fim:
Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
Uma batalha simples, não fosse o que acontece depois:
As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Não existem batalhas sem sujeira. Não há morte do anjo mau, quartos com pisos confortáveis, torres, pensamentos, tetos sem um anjo bom também ferido e sem um preço.
Correr de bedéis, identificar sussurros sub-reptícios de anjos maus fingindo-se seres de luz, estar constantemente em combates. Exaurir-se, violar o próprio corpo, pensar numa queda a fim de salvar o direito à escrita. Essa é a tinta que não descora, da qual não nos livramos.
«Às vezes, especialmente quando releio Pizarnik e outras escritoras, pergunto-me se estar — nas sombras, ensimesmada, constantemente duvidando do próprio valor — é a única maneira de escrever. Então, tento imaginar como será escrever do outro lado, lutando apenas com a ansiedade da influência, medindo o tamanho e o poder da minha espada com as de outros heróis que me precederam na batalha, escrever, enfim, querendo ser nada mais do que “Dostoiévski ou Joyce”.» Betina González, A obrigação de ser genial
A ideia de uma guerra que durasse séculos me inquieta. Não fosse o estofado, isso ganharia contornos mais dramáticos. Precisaria me levantar, movimentar-me. O que provavelmente perturbaria os outros na espera comigo.
De repente, ouço uma voz mais alta e firme vindo da sala de consultas. É chegado o momento, e logo estarei longe do campo de batalha.
Por debaixo da porta, podem-se ver movimentos de pés obstruindo a luz. A mesma luz que, como por um milagre, finaliza o poema:
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
A porta se abre finalmente. De lá emerge uma luz que me impede a compreensão por alguns segundos, e só então eu vejo que o terceiro anjo, que não ressuscita o anjo mau nem desfaz a sujeira da tinta, mas que pensa as feridas do anjo bom, é a minha escrita — esse texto, e mais tantos outros — e que, não solucionando as questões, ao menos as clareiam.
São como um bálsamo, a verdadeira purificação.
E não foi por tudo isso que esperei hoje?
escrevi esse texto depois de ter assistido ao belíssimo filme La Chimera, da diretora italiana Alice Rohrwacher. Quando li alguns comentários na internet, me perturbou demais as pessoas falarem que não compreenderam “a proposta”. Lembram um pouco os que diziam não entender a música açaí, do Djavan. E isso me fez pensar que não sonhamos mais, buscamos pouco, nos encantamos quase nada. Um dos personagens (um melancólico arqueólogo inglês) tem um dom bem semelhante ao dos encontradores de água no sertão. Aqui chamamos essa atividade de radiestesia, ou rabdomancia. Há pessoas com uma sensibilidade maior a encontrar água - no Brasil existe até uma associação só para isso. No sertão ninguém desconversa, os buscadores são respeitados. Já morei, inclusive, em duas casas abastecidas por poços encontrados assim.
Mas o que eu desejaria mesmo é que tivéssemos nós uma forquilha interna capaz de ver beleza ,poesia e magia todos os dias.
Quem viu, viu. Eu quis muuuito falar desse discurso, porque tantas coisas nele me impressionaram. Achei muito irreverente por muitas razões. Tenho a impressão de que as ideias vêm no cérebro do László, e aquele homem não consegue domá-las. Vi, numa entrevista, que ele não escreve exatamente sentadinho numa mesinha, com um bloquinho. Ele está pra lá e pra cá, e os pensamentos vêm; se não correr pra anotar, perde tudo.
A princípio, escrevi um ensaio em que falava não só desses textos da Virginia Woolf, como explicava o livro A obrigação de ser genial, da Betina Gonzalez, mas também colocava na cena o Jon Fosse, o László e uma análise do conto da Samanta Schweblin — tudo isso a partir dessa capacidade que a literatura nos dá de teletransporte. Um escritor que está e não está. Não ficou ruim, mas eu não gostei da melodia.
Ainda bem que não gostei. Quase fui vencida pela exaustão. Queria muito contar essa história de um outro jeito. E esse jeito é o que vocês acabaram de ler. Não sem algumas feridas. Muito ficou de fora, mas permaneceu a lição de que um texto pode ser outro, que pode ser mais outro e pode dar o mote para um outro e outros.
Bem, é isso
o que desejo para todos nós é que os nossos muitos sonhos continuem nos mantendo caminhando - em quartos, num lugar, estando, na verdade, noutro, em gramados etc. Que travemos o bom combate sem perder a ternura (às vezes sim, espalha-se tinta)
e muita poesia…
eu continuo nessa rua tomando conta do mundo com a minha forquilha imaginária.
E. F. do Maranhão
É DO NORDESTE!!!!







Eu, que nunca penso nos anjos, anotando isso: "Anjos nos interessam" ✨
Mulher, você é incrível!!
Que bom q a gente pode passear e se deliciar no seu acampamento !
💛