Notas Apátridas
Le spleen de São Luís
o bom, se breve, é duas vezes bom.
Augusto Monterroso
Em mil não sei quantos e cacetada, Baudelaire teve a ideia de reunir textos “que não se poderia dizer, sem injustiça, que não tenham pé nem cabeça, pois, ao contrário, tudo o que eles têm é, ao mesmo tempo, cabeça e pé, alternada e reciprocamente.” Le Spleen de Paris
Anos mais tarde, o gelo já derretia. O buraco da camada de ozônio estava um tantinho maior, nós culpávamos as geladeiras nas aulas de geografia, e o contista Julio Ramón Ribeyro escreveu Prosas Apátridas1 - um livrinho bem gostoso, bem garboso, que terminei de ler numa insônia.
Baudelaire, no prefácio, disse que era muito bom publicar textos assim. Como não poderia dizer exatamente desse jeito, disse:
Considere, eu lhe peço, que admiráveis comodidades essa combinação nos oferece a todos, a você, a mim e ao leitor. Nós podemos interromper onde quisermos, eu os meus devaneios, você o manuscrito e o leitor sua leitura; porque eu não impeço a vontade contestadora de cada um no curso interminável de uma intriga superfina. Tire uma vértebra da coluna e as duas porções dessa fantasia tortuosa se reunirão sem dificuldade. Parta-a em numerosos fragmentos e você verá que cada um pode existir isoladamente. Na esperança de que alguns desses pedaços serão os mais vivos para agradá-lo ou distraí-lo, eu ouso dedicar-lhe a serpente inteira.
Julio Ramón Ribeyro precisou explicar que as prosas apátridas não eram textos de um apátrida, ou de alguém que assim se considerasse, mas anotações que não encontraram lugar em seus livros já publicados e que erravam entre seus papéis.
Gostei das duas explicações. Oferecer uma serpente inteira e permitir que o leitor a fragmente, se quiser, é genial. Os textos errantes que surgem na madrugada, andam de um lugar a outro nas gavetas e caderninhos, buscando onde pousar, formam uma imagem bela - digna de um filme infantil de sucesso.
A minha explicação é esta: estou sempre escrevendo. São textos que surgem nos entrelugares, enquanto dirijo, antes de entrar no elevador, ao ler uma frase, gostar de uma epígrafe, sentir dó do Milton Hatoum com uma rinite no roda-viva e ninguém ligar para o nosso nobelável - a saúde de um grande romancista. Por isso, encho as notas do meu Substack.
Reescrevi, revi, revirei, puxei, empurrei - e adorei.
Tenho me tornado cada vez mais escritora especialmente quando, passado o frenesi da ideia inicial, sento para o mais difícil: esse embate gostoso com as palavras.
1
Há muitas coisas que não conheço - disse em voz alta enquanto procurava um hidrocor verde-claro. Falei isso porque havia desabafado estar com inveja de uma amiga que vai, nas férias, para a República Tcheca. Continuei pintando Bobbie Goods para esquecer, mas o pensamento retornou.
Listei então as coisas que não conheço: neve, montanhas com neve, Montevidéu, Patagônia, chicha, Alter-do-Chão, o Rio Negro, a casa azul de Frida Kahlo.
Só que a cena de ontem, dos garotos correndo depois do gol, dos fogos e de todas as janelas abertas, das portas cheias mais do que o usual, também era coisa que eu não conhecia. Apesar dos barulhos o tempo inteiro, o bairro novo eu nunca vi em final de campeonato. O barulho de festa colocou todo mundo pra fora.
Os vizinhos flamenguistas eram novidade e me zoaram de um jeito efusivo, mas que fez esquecer as quatro costumeiras pessoas que não respondem a um bom-dia por nada.
Nunca vi neve, mas conheço de cor o gelo e a frieza de alguns vizinhos. Só que ontem pude ver a nobreza de gente que nunca saiu à porta - seja pelos horários de trabalho, seja porque a vida é esse desencontro.
Achei tão bonito que, num bairro sempre movimentado, eu vi ontem algo que não conhecia: um impulso novo de felicidade porque um time foi tetracampeão.
2
Hoje jogam Flamengo e Palmeiras. Ouço de longe o hino do Flamengo e um arrocha do Pablo. Dois garotos passaram na porta e um deles disse que o Palmeiras seria tetra; o flamenguista rebateu que “o Flamengo também”. O meu vizinho que me odeia, quem diria, tem uma voz diferente quando fala com outros homens, e descobri que é capaz de movimentar os músculos da face, pois sorriu depois que gritou que “o porco já tá no forno”.
Venta bastante — o que compensa os dois dias que passamos com muito calor. É a primeira vez que vejo o céu se acinzentar desde o início de novembro, o que é tarde, considerando que as mangas estão em todos os mercados e eu já deveria estar fazendo piadas com Macondo e “está chovendo por 4 anos, 11 meses e 2 dias”.
Os tempos são outros, e o clima também. Em outras épocas, já deveríamos estar verdes como no livro e com peixes levitando pela casa por causa da umidade.
Espalhei balões verdes e vermelhos pela parede. Amarrei um bem pequeno no corpo do porquinho de argila. Dentro dele estão moedas de cruzados que minha bisavó me deu antes de morrer. Ela passava objetos das mãos dela para as minhas sem ninguém ver. Foi assim, aliás, que anteviu a própria morte. Queria que eu ficasse com todos os móveis antigos, inclusive uma foto do papa.
Minha vó cuidava das coisinhas dela. Os eletrodomésticos, por exemplo, tinham roupinhas de crochê. Era cuidadosa e hospitaleira. Por isso vejo que, quando espalho balões, enfeito a casa e tiro os copos bonitos do armário para a final de um campeonato, não é apenas porque vamos ser tetra; é mais porque aprendi a ser campeã na vida, como ela.
São roupinhas e enfeites para estar com as pessoas que amamos. Quem olhar direitinho vai perceber que estou passando das minhas mãos para as das minhas amigas um pouco de amor e beleza.
Viva as amizades. Viva o Palmeiras2
3
Estou escrevendo algo. Uma coisa. E, nessa coisa, nesse algo, uma personagem precisa ser daquelas de quem a gente acha que sabe um pouco, mas não sabe nada de verdade. Depois fiquei matutando se isso era possível no texto. Na cabeça, sim. Mas, e no texto? Só que também comecei a pensar que nem na cabeça, nem na vida. É porque fui perdendo a coragem. Ou porque chorei após o almoço com saudade da minha casa no interior — me sinto deslocada às vezes, mesmo na cidade que amo tanto, porque gostaria de estar escolhendo ovos azuis de galinha caipira para o café ou fazendo coisas a pé.
Mas isso dos ovos me fez lembrar de uma amiga numa das cidades em que morei, cuja vendinha ficava ao lado de uma pousada. Pousada no Maranhão pode ser não só um lugar para pousar. Às vezes a gente estava lá, era meio-dia, e o chão da rua tremia. Vinha de lá. Meia hora depois saíam esse senhorzinho e uma moça. Cabeças erguidas. Não deviam nada a ninguém. Nem a dona, uma assembleiana que só andava de saia longa, escondia o multitalento do lugar. E nem eu, muito curiosa, abaixava a vista.
Por isso, quando esse senhor aparecia de manhã cedo e sentava na porta da venda, a gente conversava muito. A história dele era que trabalhou como vigia e depois guarda pessoal de Juscelino Kubitschek durante a construção de Brasília. Falava baixo, entonando só algumas vezes a voz, nas partes em que precisava me convencer de que aquilo aconteceu mesmo. Contou de mortes, mortos, saudades e conspirações. Se Juscelino Kubitschek construiu Brasília, foi por causa dele. Devemos isso a esse senhor que fazia a rua tremer.
Na última vez que o vi, apontou para o sol e emendou numa história de como sobreviveu ao calor do cerrado. Eu perguntava coisas sobre a arquitetura de Brasília e ele me respondia como se, além de ter sido vigia e guarda-costas pessoal, também houvesse participado dos projetos — menos da política. “Recusei fazer parte da política, com isso eu não me meto”, foi o que me disse antes de se levantar e explicar que ia tomar um banho de lata d’água gelada para então almoçar e sestar.
Um pouco antes de mudar, perguntei à minha amiga sobre o paradeiro do homem. Ela acabou confirmando as minhas suspeitas. O senhorzinho só aparecia de seis em seis meses. Ninguém sabia, nem a dona da pousada, onde ele realmente morava. Recapitulei rapidamente os nossos encontros e me dei conta de que ele tinha um sotaque indefinível e de que me pareceu muito rijo ainda para quem enfrentou sol e calor e tinha por volta de vinte anos em 1957. Então, eis alguém de quem eu soube bastante e, ao mesmo tempo, nada.
Ainda tentei descobrir quem era a moça que tremia a rua junto com ele. Como andava a cidade toda, talvez eu pudesse algum dia encontrá-la e perguntar do senhor. Nunca a vi. E também fiquei com medo, porque achei que o que aconteceu era tudo que eu precisava saber.
Ocorre que agora eu sei mais ou menos o molde de onde virá essa minha personagem. Foi bastante, foi o suficiente.
E isso aqui não é um conto. Tudo aconteceu como eu estou contando. Quer dizer, dizendo.
4
A gente sempre sabe o que os leitores estão fazendo. Não importa. Sabemos. Não importa se estão parados na entrada da ponte que divide o Maranhão do Piauí, perguntando a si mesmos que rio é aquele, enquanto outra pessoa que vai no mesmo carro dá uma aula de geografia. O leitor, ele está na ponte e, ainda que não compreenda que rio é aquele, saberá depois.
Agora, ele olha a largura do rio, a cor, e vê se na encosta há casas.
O pensamento já experimenta o devaneio de Bachelard. Como se mora na beirada de um rio caudaloso e famoso? O que faz ali alguém tão longe de bibliotecas e livrarias? Então ele lembra de um conto do Milton Hatoum sobre um cientista japonês que comprou uma passagem aérea e cruzou o céu apenas para navegar por uma tarde pelo Rio Negro. Ele só tinha aquela tarde, como o leitor que tem apenas alguns minutos, porque não são todos os viajantes que se dispõem a parar em cabeceiras de pontes.
O leitor sabe que valerá a pena e que aquela brevidade, na verdade, é eterna. O devaneio do autor será ele que transformará o instante.
A literatura nasce assim, também porque a gente sempre sabe o que os leitores estão fazendo.
5
Na salinha do meu pediatra havia um quadro de um enorme bosque europeu. Gostamos de florestas europeias até conhecer as nossas. Foi assim que comecei a ler muito mal os quadros e, por isso, achava que, nesse do Edward Hopper3, a moça havia saído no meio de uma peça de teatro. Só depois reparei que era um cinema. Meu desvio aconteceu porque eu não segui as instruções do Cortázar para entender pinturas famosas (Instrucciones para entender tres pinturas famosas, em Historias de cronopios y de famas) e também porque eu mesma já me retirei de uma peça no teatro só para viver essa solidão e silêncio no corredor. Depois, fiz disso um hábito.
Me4 retiro nas casas, invado os cômodos; nas feiras, escolho os bancos nos cantos, as esquinas. Em casa, sem poder escolher o silêncio, me retiro nos livros e cadernos.
Não sei se entendi bem, mas, quando ouvi recentemente uma entrevista da Samanta Schweblin, ela também falava de se retirar para ir ao banheiro da casa de amigos e espiar os armários. Eu também tive isso, especialmente na casa da minha madrinha - fui batizada cedo no catolicismo. Ela tinha uns perfumes com vidros muito bonitos, e o banheiro era daqueles antigos, com bidê, cores pastel nas louças e flores no azulejo.
Embora fosse um lugar todo silencioso - o filho dela era um retirante inveterado, não saía do quarto por nada e tinha umas quatro paredes lotadas de discos de jazz e blues -, o banheiro ainda era o espaço mais confortável da casa. Havia uma luz agradável e era bem grande. Tamanho perfeito para uma pessoa viciada nos tremores que sentia no corpo assim que saía de um espaço festivo e barulhento para outro de absoluto silêncio e contemplação.
6
Arapuá5
una abejita se posa
en el brazo del bandolín de la apicultora
deja una gotita diminuta de miel
la amasa con sus patitas y se recuesta
para una tarde de viento y canciones
7
Tenho horror a baratas. Horror.
Mas, como sou a escolhida dos insetos, a barata também me escolhe. Todos os dias, uma barata me escolhe.
Esta semana, eu pegava apressada uma blusinha de mangas — porque aqui não morremos de frio, mas andamos cobertos, com protetor solar ou tecidos especiais — quando uma barata subiu pelo meu cotovelo, atravessou decidida o meu braço e alcançou o meu pescoço, enroscando-se em um dos cachos.
Os meus gritos não assustaram ninguém: o bairro já se acostumou a berreiros e escarcéus a qualquer hora.
Mas eu notei que a barata petrificou, e ficamos nós duas estáticas, sem saber o que fazer.
Eu, querendo me livrar do horror das perninhas na cabeça; e a barata — uma pedra — talvez imaginando para quê tanto grito, e por que nos encontramos ali, na saída rápida da casa, quase duas da tarde, unidas por uma força que nem ela nem eu sabíamos o que era.
No entanto, nos escolhemos.
8
“Quando eu era menino chupei uma vez tanta manga verde que fiquei doente de cama por três dias, faltei ao grupo, só vendo. Eu tinha um coelhinho chamado Pastoff. Um dia meu pai pegou o coelho e deu para um amigo, fiquei triste mesmo, chorei muito, papai foi muito mau. A coisa que mais gostava era no tempo de frio sair fumacinha da minha boca. Pipocas, Fernando! Clarice Lispector é uma coisa riscadinha sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo no vento na chuva, molhou o vestido, perdeu o chapéu. Clarice Lispector sabe rir e chorar ao mesmo tempo, vocês já viram? Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre. Me escreva uma carta de 7 páginas, Clarice.”
Fernando Sabino
Reli as cartas trocadas entre Fernando Sabino e Clarice Lispector6.
Olho para as palavras e quero, por exemplo, parecer uma árvore, atravessar um rua, e ter um fusca verde passando por cima de mim, me tornar uma defunta-autora, contrariar o Drummond e escrever: “quando morri, um anjo troncho, desses que fez concurso para agente de trânsito, disse: vai, distraída, ser escritora na vida.
É que eu adoro ser uma coisa riscadinha sozinha num canto
quero ser uma coisa risadinha
nadinha
nadinha
9
A Samanta Schweblin nem sabe que, em outro continente, tem uma mentorada feliz. Se ela diz que escreve um conto entre quatro a seis meses, a aluna se alegra por ter também um texto aguardando a reescritura; se ela tem uma personagem misteriosa, um homem com roupas de caçador e que estrebucha um bicho com uma faquinha afiada, ela aqui já deu uma cara a ele — um vizinho duas casas depois, que, quando a vê, parece que acabou de tirá-la de dentro do nariz. Nem um bom-dia ou boa tarde: um sujeito puro ódio, mas que gosta de regar plantas.
Além disso, a seguidora da contista já se imaginou falando “taller” no grupo de escrita em Lago Puelo, em que se inscreveu mentindo que sabe falar e escrever espanhol. Achou também que deve ser de todos os escritores gostar muito especialmente de ter uma mesa de trabalho, coisinhas sobre ela, papéis, caderninhos, mas que, quando viu que, para a Samanta, elas são importantes, “sagrados controladores aéreos”7, tratou ela mesma de fotografar agora todas as suas mesas.
10
Sempre que eu passava férias no Pará, voltava com uma coleção de palavras e imagens. Quando aprendi a palavra igarapé, por exemplo, voltei para a escola envaidecida, até esnobe. Onde pudesse, enfiaria a palavra nova: “tomar banho na praia é legal, mas a água geladinha de um igarapé, protegido pelas árvores enormes da floresta, não tem nada igual”.
Nessas horas, o ressentimento de não ter vivido a vida dos meus primos — entre palavras amazônicas, o tempo verbal “tu estavas”, “tu farias”, o chiado do “s”, tacacá, maniçoba, pupunha, açaí — diminuía um pouquinho. Era como se eu voltasse de lá cheia de significados, a água batendo para além das raízes, como num igapó.
Foram muitas as vezes em que sonhei que a vida me levaria de volta para casa. Nesses sonhos, de repente, nas curvas dos igarapés, eu achava aquele canto sagrado da mata onde nenhum barquinho fino chegou, muito menos os olhares e ouvidos atentos dos ribeirinhos. Até que me vi nesses entre lugares: todo o tempo avançando e, agora, regressando.
Para que serve a literatura? Faz um tempinho, eu percebo, que ela tem me servido para me aproximar de casa. Para que eu tenha a vida dos meus primos, para que eu nade nos igarapés, para que saiba os nomes das plantas, para me orgulhar sempre da minha história8.
11
A primeira vez que desejei ver a paisagem de trem que li num livro foi ao ler Enrique Vila-Matas. Acho que a personagem ouvia Not Dark Yet, do Bob Dylan. Desde então, o que mais faço é me imaginar esperando um trem.
Isso acontece sempre quando estou perto de finalizar um livro de que gosto muito.
Dia desses, eu estava a uns trinta minutos de o trem chegar. Era só o tempo de jogar a latinha de Coca no lixo e pegar a valise debaixo do banco.
Recapitulei um ou dois personagens favoritos. Esfreguei as mãos e voltei algumas páginas. Um cachorro, um labrador, saiu de detrás da lixeira e deitou sob meus pés. Me estiquei para alisar o seu pelo e disse-lhe que estava me despedindo dos contos da Samanta para passar a vista em dois livros e aquecer o corpo para o último de uma trilogia. As duas orelhas se eriçaram; entendi que cachorros não sentem borboletas na barriga, mas sim nas orelhas. Éramos um duplo.
Voltei ao meu lugar, ainda sentindo o frio na barriga por causa do que havia acabado de pronunciar. Acabou quando ele abaixou a orelha.
Eu já estou no trem. O cão veio comigo. A paisagem já é outra, e rápido me acostumo à luz que vem de fora no sentido oposto ao nosso destino.
12
É muito bom pegar o livro, rabiscar, gostar do traço torto, desenhar um coração ao lado de um trecho, fazer outro traço mais torto ainda, parar numa terceira dimensão entusiasmada porque “não é possível que eu estava pensando exatamente nisso” ou “então é isso mesmo? a vida é assim?”, adorar uma epígrafe e deixá-la intacta porque, para fotos, as epígrafes, esses sítios arqueológicos peculiares, devem permanecer como vêm ao mundo.
(Por mais que o Kindle seja bom também e os livros cheguem rápido.)
13
No livro da Samanta (sim, eu sou assim. E eu amo), ela tem um conto que eu jamais imaginaria que pudesse acontecer em Atlântida. Em Atlântida, talvez eu escrevesse sobre escafandristas que não sabiam o nome escafandro até que o Chico Buarque escrevesse sobre eles numa canção. Mas a Samanta fala de duas irmãs e uma poeta. Uma delas pede à poeta que lhe ensine a escrever: “Acha que consegue escrever mais?”, minha irmã perguntou. A mulher assentiu com tanta confiança que me fez ter dúvidas sobre o que minha irmã estava perguntando. “Acha que pode me ensinar?” (Atlântida, em O Bom Mal, Samanta Schweblin)
Eu lembrei da recente história sobre o que é literatura ou não, conteúdo e forma. Gostei de ler, no dia seguinte, todos os textos; anotei livros novos; lamentei um bocadinho ter abandonado o mestrado em literatura, mas não consegui fugir do que, para mim, foi o mais importante: a sala em que pousou a Aurora Bernardini para a foto da Folha9, com uma enorme estante atrás, muitos livros empilhados sobre a mesa, um sofá verde e um ponto de luz que vinha do jardim de inverno, com algumas plantas.
Apesar de ter dito que eu, Elena Ferrante, “sou interessante, mas não sou literatura”, esqueceria disso imediatamente para, sentada naquele sofá, perguntar-lhe: a senhora é tradutora e professora de literatura russa, não é? Então sabe russo. Acha que pode me ensinar?
14
Eles são um casal de espiões. Ele chega em casa e a observa, belíssima, trocar de roupa. Ela pega uma peça em cima da cama e sabe que está sendo vista. Mesmo assim, achei que foi um pouco plástica essa cena. Ela poderia, fingindo que não sabe, mas sabendo que ele sabe que ela sabe, deixar que ficasse mais natural o jeito como se abaixa. A barriga nem dobra. E uma mulher tem que ter qualquer coisa que dobre, porque se come bastante cuscuz.
O que diz em seguida é menos natural ainda: “sei quando você me observa”. Ele diz “sorry”, e ela responde “eu gosto”.
Enfim. Cada um sabe de si. Mas eu não faria assim, não.
Porque é assim que começa um filme bobo.
Acho que é para ser bobo mesmo, para que o feito mais maravilhoso deles seja pular em telhados e atirar enquanto dirigem aqueles carros ingleses.10
15
Umas semanas antes da pandemia, eu escondi um disco do Bill Evans atrás de uma caixa, num sebo no centro da cidade, porque eu não tinha Pix, ele não aceitava Pix, eu não tinha dinheiro, ele aceitava dinheiro, mas eu só uma água. E pensei nesse disco por todo esse tempo.
Ainda não fui buscar o disco.
16
Gosto de ver o rio Parnaíba.
17
Quando eu era criança, gostava de brincar com bonequinhas de papel sobre mapas. Era fácil visualizar os acidentes geográficos a partir das gravuras. Eu juntava o que fotografava com os olhos, ali naqueles mapas, com as viagens que fazíamos de carro para a casa de meus avós maternos, no Pará. Eu via tudo como se olhasse de cima.
Passei a ser uma colecionadora de rios porque sabia de quase todos no mapa, mas nunca os tinha visto de perto. Cresci no litoral, mas tenho o meu coração, como na canção do Milton, na curva de um rio, rio, rio.
Nesse feriado, foi a primeira vez que subi a serra do Ceará. Sempre vi em Machado de Assis algo nesse sentido. Quando lia os clássicos na escola, achava que subir a serra era coisa do Sul e do Sudeste, da mocinha tísica, do coração ferido, porque a altura cura tudo.
Eu não fazia ideia. Na serra tudo é tão verde e dali tudo também é tão pequeno. Mas a serra é gigante, a perder de vista. Nossos ouvidos tapam e destapam. Ouvi quem reclamasse do calor porque fazia 24 graus.
Gostei imenso de retornar aos mapas e à geografia da minha infância. Sinto-me cidadã de tudo em que pisei e gostei de cada PF na estrada, de todos os tipos de fachadas e barzinhos nas cidades com nomes engraçados.
18
nem eu me aguento na tpm quero chocolates metafísica pizza fina chorar quero que adivinhem meu pensamento sim molho de tomate caseiro passagem pra recife um cargo público um brinco de miçangas gigante todo o carrinho da shein dez mil reais em livros ir para o japão pizza de novo pintar um quadro massagem no cabelo com abacate e azeite de oliva encontrar a chave de afinar o pandeiro passar uma semana naquela pousada em olinda pizza doce conhecer o rio negro encontrar sem querer a matilde campilho: “Meu Deus, vc por aqui?” comprar uma blusa “tudo é divino e maravilhoso” comer farinha baguda com açaí encontrar uma lagarta fotografar aranhas andar pelo centro analisar tipografias ouvir Prince e dançar entrevistar a elena ferrante passar um final de semana no barco da Tamara conhecer a Ilha de Ferro voltar a comprar argila assistir ao filme novo da Celine Song olhar a flecha a reta o risco a reza todos os sonhos.
19
Uma vez eu passava por uma cidade que jamais conheceria se não estivesse tão longe da capital. O destino final era Barra Grande, no Piauí. Vi na estrada uma casinha solitária, nada mais ao redor.
Um homem saiu da casa levantando as mãos e, atrás, uma jovem segurava um facão. Eles brigavam. O homem se encostou no alpendre, e ela continuou a falar.
Pode ser o começo, mas também o fim.
O que há para brigar por aquelas bandas?
Eu só imaginei que, em qualquer canto, se acha sempre um jeito de estar zangado e amuado, segurando um facão. Mas, longe de pensar demais no que aconteceu antes ou depois, eu adorei ter visto o momento.
Sozinho, ele já foi fascinante.
Lembro da cor da vegetação e que fazia sombra em alguns trechos da estrada.
Agradeci porque estava diante de um conto. Sei agora.
20
Eu amo tudo no livro.
Eu amo prefácios, posfácios.
Notas de rodapé11 eu amo também. Muitas notas, gigantes, várias, até não ter mais onde pisar.
Eu amo a capa, o conselho editorial, a epígrafe - todas -, as referências.
Adoro quando aparecem os itálicos, de repente.
As margens. Amo.
Numa margem a gente olha para aquela paisagem ali na folha. Numa margem a gente se encosta, deita, até parar numa fotografia e ganhar fôlego para a orelha e a contracapa.
não gostei de tudo, mas gostei da maioria
sim, eu sei. Não precisa me lembrar que tivemos um pênalti roubado.
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
Oswald de Andrade, Pau-Brasil. 2. ed. São Paulo: Globo, 2003. p. 167.
meu primeiro poeminha em espanhol que escrevi após ouvir essa música aqui. Vocês que tudo sabem em diversas línguas, não me digam nada caso haja o que mudar. não quero saber. Porque é meu primeiro poema em espanhol e tenho cada vez mais me tornado escritora escrevendo coisas do tamanho de uma gotinha de mel.
tô com muita preguiça de escrever essa nota. é só pesquisar: livro das cartas trocadas entre Fernando Sabino e Clarice Lispector.
eu estava lendo o livro do Dráuzio Varella, O sentido das águas: histórias do Rio Negro.
uma conversa que eu teria perfeitamente com a minha best Adília Lopes.
aaaaamooooooooo.
Penúltimo texto do ano.
Porque minha mãe disse que eu não sou todo mundo, então ainda tem mais um em que falo de anjos, coloco o ganhador do Nobel de 2025 diante de quatro escritoras e falo sobre o senhor que aparece no discurso do László, com uma aparente passagem de pedra. Além disso, é possível que anjos se matem nesse texto ou num poema de Drummond.
Tenho sintomas de quem não gosta muito de ser o centro das atenções, mas sou humana. A princípio, quando via cada vez mais pessoas chegando, ficava muito nervosa e ansiosa. Bem ao contrário de quem escrevia “publiquei hoje para os meus 200 leitores”, eu sentia algo aqui por dentro me suando quanto mais pessoas chegavam. Era só isso que eu queria dizer. Tem sido um exercício de continuar suando e publicando. Porém, não prometo nada. Sou bem Raduan Nassar das ideias, posso postar meu grande texto e sair para criar galinhas. Também quero um destino Matilde Campilho, virar um poema inesquecível.
Leiam e escrevam muito
The one and only, E. F. do país Maranhão
É DO NORDESTE!!!!!
(sempre me perguntam: eu nasci no Norte (Pará) e vim criancinha para o Maranhão - um duplo privilégio)



a cena da barata está até agora voando no meu imaginário. deus me livre! hahaha
Essas notas estão deliciosas. Você me faz querer ler a Samanta.